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Publicado em 16/07/2020

A canoa furada dos impostos

Por: Gilberto Simões Pires

30 DE JUNHO DE 1999

Já contei inúmeras vezes a ótima história da CANOA FURADA DOS IMPOSTOS, obedecendo ipsis literis a obra de autoria do administrador Stephen Kanitz, a qual foi publicado na coluna -Ponto de Vista- da revista Veja de 30 de junho de 1999. Como o tema - REFORMA TRIBUTÁRIA voltou a ser discutido, o momento é por demais oportuno para recontar esta velha história, que recentemente completou 21 anos. Eis:

RACIOCÍNIO

Antes da descoberta do Brasil, um índio que quisesse fazer uma canoa derrubava uma árvore e em um mês de trabalho tinha sua canoa novinha em folha. Você, leitor, se quisesse fazer o mesmo descobriria, assustado, as razões da nossa estagnação e má distribuição de renda. Para facilitar o raciocínio, vou supor que você, leitor, esteja empregado numa indústria de canoas e que após um mês de trabalho, talhando a mesma árvore, receba R$ 1000 reais de salário. Descontados (à época) 15% de imposto de renda e 8% de contribuição social, o salário se reduz a R$ 770 reais. No final do ano você sai da fábrica e entra na loja disposto a comprar a canoa que fabricou e negocia com seu patrão:

CÁLCULO EM VOZ ALTA

O patrão, ao levar em conta que você, leitor, é da casa, resolve não cobrar o CUSTO DA MATÉRIA PRIMA (madeira), só a sua MÃO-DE-OBRA. Fazendo o cálculo em voz alta para que o leitor acompanhe o raciocínio, diz: - Seu salário foi de R$ 1000 reais, que, acrescido de 50% de encargos sociais, soma R$ 1500 reais. Tem mais 11% de IPI, 22% de ICMS, tem PIS, COFINS e mais 58 taxas e tributos, o que totaliza R$ 2200 reais. Ah, tem ainda 5% do meu lucro, igual à média brasileira. Pronto: o barco é seu pela bagatela de R$ 2310 reais.

TRÊS VEZES SEU SALÁRIO

Você, leitor, olha o preço (bagatela) do barco e compara com o seu salário de R$ 770 reais e percebe, imediatamente, que não comprará sua canoa porque ela custa TRÊS VEZES SEU SALÁRIO POR CAUSA DOS IMPOSTOS.

KARL MARX SE REVIRANDO NA COVA

O Brasil está, desde sempre, numa legítima CANOA FURADA não pela GANÂNCIA DO CAPITAL, mas pela CARGA TRIBUTÁRIA DO GOVERNO, que consome 65% do CUSTO DO PRODUTO. Isso explica por que nossa indústria está desempregando cada vez mais. Só sobrevivem a área de SERVIÇOS e a ECONOMIA INFORMAL. Karl Marx deve estar se revirando na cova ao constatar que quem EXPLORA O TRABALHADOR não são os 5% de lucro do CAPITALISTA, mas sim os 65% do ESTADO.

EM TESE

Como se vê, em tese a nossa produção só pode ser vendida se existirem consumidores que ganhem TRÊS VEZES MAIS do que aqueles que produzem. Ou seja, você, leitor, só consegue comprar os produtos elaborados por quem ganha R$ 260 reais. De novo: - quem ganha R$ 770 reais não consegue comprar aquilo que produziu. Que tal?

AÍ MORA O PERIGO

Concluindo, vale lembrar que o que está sendo discutido é apenas a REFORMA TRIBUTÁRIA, com o intuito de SIMPLIFICAÇÃO do pagamento da ELEVADÍSSIMA CARGA TRIBUTÁRIA, que é tema para uma não cogitada REFORMA FISCAL. O que preocupa, e muito, no entanto, é que sob pretexto de SIMPLIFICAR O SISTEMA TRIBUTÁRIO, os governantes vão se aproveitar deste grave momento para fazer MAIS DO MESMO, ou seja, AUMENTAR AINDA MAIS A CARGA DE IMPOSTOS. Aí mora o perigo!

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